
Foi numa semana qualquer durante minha andança matinal que presenciei a cena. Cena comum, dessas que se vê diariamente pelas ruas da cidade. Mas algo me chamou a atenção. Não por ser diferenciada, mas mais pelo aspecto do cidadão, personagem central do fato. Um senhor envelhecido precocemente, em desalinho os cabelos brancos, roupa surrada. Transitava ele de cabeça baixa, indiferente ao transito que fluía. Vez por outra seu olhar se perdia de lado a outro da rua longa e vazia. Como começo do dia, logo pela manhã o movimento era escasso.Completamente absorto, percebia-se na sua lenta caminhada que não atinava com o que se passava a sua volta, mas como estava sozinho era perceptível sua presença.Num dos cestos de lixo parou, olhou, para em seguida começar a vasculha-los. Pensei comigo:-Triste sina. Um homem nesta idade buscando no cesto de lixo o que necessita. Como se torna difícil encarar tal tipo de situação e nos conscientizarmos que isto acontece em todos os dias do ano.Observei quando do saco de lixo, desprezando tudo, ele buscou um brinquedo. Não dava para perceber direito, mas parecia um pequeno caminhão sem rodas. Limpou-o com a sobra da camisa que estava fora da calça e do outro saco de lixo pegou uma boneca também de diminuto tamanho. De novo o ritual de limpeza.Mesmo ao longe, rodopiavam os pensamentos que passavam em minha mente. A cena chocava porque imbuído pelo espírito cristão me perguntava o que iria aquele velho fazer com os brinquedos tirados do lixo. Com muito tato cumprimentei-o e fiz-lhe a pergunta que me deixava encabulado. O que iria fazer com aqueles brinquedos velhos.Num sorriso espontâneo respondeu: Fiquei doente ainda moço. Com muita fé pedi ao bom Deus que me ajudasse e se isso acontecesse iria presentear crianças pobres com brinquedos. Como estou desempregado e em breve chegará o dia dedicado às crianças eu colho no lixo os brinquedos atirados fora. Com cuidado eu os reformo e dou a elas. Assim, mesmo não tendo ainda recebido a dádiva de Deus, eu cumpro com o que prometi. Eu sei que Ele é muito ocupado e está ajudando gente que está pior que eu. Com certeza minha vez chegará e vou ficar bom de saúde.Ponderei comigo mesmo: Nada é por acaso. Algo faz sentido para ele. Por certo terá muito trabalho para consertar aquele brinquedo e presenteará alguma criança. Que com certeza o receberá com um sorriso, afinal no coração de uma criança só existe lugar para a alegria e a esperança.E mais, dentro do seu limitado mundo, aquele velho, esquecendo suas agruras procurou no seu entender de Caridade alegrar uma criança vendo um estampado sorriso em sua face. E que para ambos teria um duplo significado: O dar e receber...O olhar e o sorrir, pois nada neste mundo tem um significado maior que a gratidão do sorriso de uma criança.Ficou em mim a lição do velho. Preciso crescer muito e aprender que grandes ações estão fragmentadas em pequenos gestos, mesmo que choquem a alguns.No seu limite fez o que muitos jamais fizeram...Doava um pouco do seu amor num brinquedo velho.
Antonio Carlos da Silveira
